A Rua Joaquim Avundano é linda, mas a convivência forçada entre taças de vinho e escapamentos abertos é um erro urbano.
Quem chega hoje à Rua Joaquim Avundano, a “Rua dos Sabores” do Miramar, tem a sensação imediata de estar em uma vila gastronômica. A prefeitura acertou na estética: o piso intertravado que nivela a rua à calçada, a iluminação baixa e a sequência de bares e restaurantes de alta qualidade criaram, sem dúvida, o metro quadrado mais charmoso da zona leste de João Pessoa.
Mas basta sentar em uma das mesas na calçada para o encanto dar lugar à tensão.
O problema é óbvio e frustrante: criaram um calçadão, mas esqueceram de avisar aos carros. O conceito de “rua compartilhada” — onde pedestres e veículos convivem no mesmo nível — funciona muito bem na teoria europeia. Na prática de João Pessoa, vira um risco de vida.
Não faz o menor sentido que uma via tão estreita, abarrotada de famílias, casais e grupos de amigos em pé, permita o trânsito livre de passagem. A rua, que deveria ser um refúgio, vira atalho.
A experiência de jantar ali é interrompida constantemente. Primeiro, pelo medo: ver um SUV passando a centímetros de uma cadeira onde alguém está sentado é angustiante. A distância entre o para-choque e o cliente é praticamente zero. Segundo, pelo desrespeito: a rua virou vitrine para motos barulhentas e carros que entram acelerando, ignorando completamente que aquele espaço agora tem vocação de lazer, não de fluxo.
Em vez de um ambiente relaxante, temos um “cuidado com o carro” a cada cinco minutos. A pergunta que fica é: por que a rua não é fechada definitivamente para veículos a partir das 18h? Colocar cones ou fitas de vez em quando não resolve. Enquanto o acesso for livre, o motorista mal-educado vai entrar.
Onde fica e o que há na Rua Joaquim Avundano
Para quem não conhece, a Rua Joaquim Avundano fica no Miramar, bairro residencial da zona leste de João Pessoa, a poucos minutos de carro da orla de Tambaú e do Cabo Branco. Desde que foi entregue como polo gastronômico, em outubro de 2024, ganhou o apelido de “Rua dos Sabores” e passou a concentrar bares, restaurantes, cafés e casas de drinks com mesas espalhadas pelas calçadas.
O movimento é mais intenso nas noites de quinta a sábado e nos fins de semana, justamente quando o público mais circula a pé, cadeiras ocupam cada metro disponível e crianças correm entre as mesas. É o cenário em que a convivência com os carros fica mais delicada.
O fechamento já foi testado
A ideia não é nova nem absurda. Em dezembro de 2024, poucas semanas depois da inauguração, a Prefeitura, por meio da Semob-JP e da Sedurb-JP, chegou a interditar a rua para veículos em caráter experimental, numa sexta à noite e no sábado seguinte, com agentes de mobilidade no bloqueio feito no cruzamento com a Rua Hilda Coutinho Lucena. Na época, a própria Semob-JP disse que avaliaria a viabilidade de tornar a medida permanente.
Teste é um bom começo, mas teste não é política pública. Se a rua tem vocação de lazer, a regra precisa ser clara, fixa e conhecida por todos: moradores, comerciantes, motoristas de aplicativo e clientes. Como as regras de circulação podem mudar, quem for até lá deve ficar atento à sinalização no local e aos comunicados oficiais da Semob-JP.
O que outras cidades já fizeram
Não é preciso inventar a roda. Ruas de lazer convivendo com moradores e comércio são um tema debatido há décadas, no Brasil e fora dele, e algumas saídas aparecem com frequência:
- Fechamento em horário fixo: a rua funciona normalmente durante o dia e vira exclusiva para pedestres à noite e nos fins de semana. A Avenida Paulista, em São Paulo, fechada aos domingos e feriados desde 2015, mostrou que o público adota rapidamente esse tipo de rotina.
- Calçadão permanente: a Rua XV de Novembro, em Curitiba, transformada em via de pedestres no início dos anos 1970, é o exemplo brasileiro clássico de que fechar uma rua ao carro não mata o comércio.
- Balizadores retráteis ou portões de controle: em vez de cones e fitas, que qualquer um afasta, barreiras fixas ou retráteis nas pontas da rua liberam a passagem apenas para moradores com garagem, ambulâncias e carga e descarga em horários definidos.
- Rua compartilhada de verdade: o modelo holandês do woonerf e as “superquadras” de Barcelona funcionam porque o carro é obrigado a andar em passo de pedestre, com mobiliário, vegetação e desenho que impedem a aceleração. Piso bonito, sozinho, não faz esse trabalho.
- Fiscalização nos horários de pico: qualquer solução depende de presença de agentes e de punição para quem ignora a regra, especialmente motos com escapamento adulterado.
Nenhuma dessas soluções é perfeita, e todas exigem conversa com quem mora na rua e precisa sair de casa de carro. Mas qualquer uma delas é melhor do que o improviso atual, em que a segurança de quem está sentado à mesa depende da educação de cada motorista.
Se você for à Rua dos Sabores
Enquanto a questão não se resolve, algumas atitudes ajudam: prefira chegar a pé, de táxi ou por aplicativo, desembarcando nas ruas transversais; se for de carro, estacione nas ruas do entorno sem bloquear garagens de moradores; com crianças pequenas, escolha mesas mais afastadas da faixa de rolamento; e, nas noites mais cheias, vale chegar cedo ou reservar, porque o movimento costuma ser grande.
O Miramar ganhou um presente com essa rua, mas enquanto carros e motos disputarem espaço com pedestres em uma via de lazer, o “charme” virá sempre acompanhado do perigo. A rua é para pessoas; os carros já têm o resto da cidade inteira.

